China dita o ritmo do mercado de soja e compra cada vez do Brasil
China antecipa aquisição de soja da próxima safra 2026 /2027, compra muito mais do Brasil e deixa dúvidas sobre acordo com os Estados Unidos.

O Brasil caminha para fechar o primeiro semestre de 2026 com um ritmo recorde de exportação de soja. Levantamento da consultoria Biond Agro mostra embarques de quase 74 milhões de toneladas no primeiro semestre, crescimento de 12,5% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram embarcadas 65 milhões de toneladas.
Esse ritmo intenso tem ajudado a escoar a safra recorde brasileira projetada pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) em 180,25 milhões de toneladas.
China, principal destino, dita o ritmo de vendas globais
Os chineses já compraram 102 milhões de toneladas, da produção global de soja 2025/26, atingindo 93,6% da necessidade estimada, segundo o relatório da Biond Agro. Desse volume, 78,33% são de soja brasileira (quase 80 milhões de toneladas).
As compras de julho e agosto aparecem parcialmente cobertas indicando que ainda há espaço para novas aquisições no curto prazo.
Outro movimento que tem chamado a atenção, por ser fora do padrão, é que os compradores chineses estão antecipando as compras da safra 2026/2027 e já teriam garantido mais de 9 milhões de toneladas da próxima temporada. São 8,2% de cobertura, ante apenas 1,7% no mesmo período do ano passado concentrando essas aquisições exclusivamente no Brasil, aponta o relatório da Biond Agro.
A tensão tarifária, entre Estados Unidos e China, empurrou os compradores chineses para o mercado brasileiro. Na busca pela segurança alimentar encontraram aqui preços, qualidade e custos mais competitivos.
De acordo com Yedda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, "a China de fato comprou as 12 milhões de toneladas que tinha colocado no acordo junto com os Estados Unidos para a safra atual. O ritmo mais forte de compra norte-americana ocorreu entre janeiro e março, período em que a colheita brasileira ainda avançava de forma mais lenta. As vendas do Brasil ganharam tração na sequência”.
O acordo entre os dois países também prevê a compra de 25 milhões de toneladas de soja americana nas próximas três temporadas. Mas, segundo Yedda, esse compromisso ainda não aparece no radar para o novo ciclo.
“Os chineses poderiam antecipar também as compras de soja americana, movimento que costuma iniciar entre maio e julho. Mas, olhando as aquisições da nova safra, a China continua ausente", reforça a analista. "A gente vê que o Brasil consegue suprir a maior parte da necessidade da China de soja basicamente o ano todo, como foi do ano passado e esse ano, novamente, com a produção recorde".
Safra 2026/2027, a antecipação chinesa bate recorde
A China já antecipou a compra 9,04 milhões de toneladas da safra 2026/27 e todo esse volume é de soja brasileira. Yedda pondera que esse comportamento "atípico" pode reduzir a demanda chinesa justamente no início da colheita, período conhecido como "boca de safra", pressionando os prêmios e preços no Brasil.
Mais chamativo ainda, segundo a analista, é o fato da China ter garantido embarques de soja brasileira, entre setembro e outubro (600 mil toneladas nesse intervalo) justamente no período em que tradicionalmente o país concentraria suas compras nos Estados Unidos com avanço da colheita norte-americana. "A China está comprando do Brasil num momento em que, tradicionalmente, compraria dos Estados Unidos. Esse fator levanta dúvidas sobre o cumprimento das 25 milhões de toneladas previstas no acordo bilateral”, alerta a analista.
Estratégia para o produtor
Para o segundo semestre, a avaliação da consultoria é que o ritmo das exportações brasileiras passará a depender menos da oferta disponível e mais da disposição da China em continuar comprando na origem brasileira, sobretudo para garantir os embarques de outubro e novembro, ainda com baixa cobertura.
"Chicago tem sofrido um pouco mais de pressão olhando para o lado da oferta, com o bom desenvolvimento das lavouras nos Estados Unidos". O arrefecimento da guerra no Oriente Médio, impactando os preços do petróleo, pode ser outro fator de pressão para os produtos do complexo soja, especialmente por causa do óleo vegetal.


